Te Garfo, o homem ímpar

Te Garfo é apelido de Getúlio Agnaldo ou Vitório Régio, tanto faz. Uma vez, ele falou “eu te garfo” no ouvido de alguém e foi ficando famoso por esse erotismo, na base da divulgação boca a boca. É a confirmação de que sexo com linguagem está sendo muito mais idealizado e  praticado do que sexo com língua.

Foi num motel feio e barato da Raposo Tavares, em São Paulo, que Te Garfo descobriu que era um homem ímpar. Sozinho, quis pagar por um quarto, o porteiro impediu. Gente ímpar não entra, só par – hétero – e dupla – homo.

– Numa deitada comigo eu fico completamente satisfeito, disse Te Garfo.

O porteiro reforçou: são dois pra lá, dois pra cá. Te Garfo insistiu:

– Eu não tenho nem vida a um, muito menos vida a dois.

O clima foi esquentando:

– Óia eu! Tô ficando de rabo empinado. Não tá vendo meu gogó subindo?

O porteiro foi firme e não permitiu a entrada de pessoa ímpar no motel. Te Garfo gritou os seus direitos:

– Só porque a gente tem um defeitinho não pode amar?

Por pirraça, quis voltar ao mesmo motel. Para não perder a pernada, ligou antes e perguntou o horário do porteiro. “Hoje não passa de hoje”, ele se dizia. E foi novamente rejeitado.

– De três não entra, só de par ou dupla. Três é ímpar.

Te Garfo ficou muito descaído com essa recusa. Na porta do motel, o par ou a dupla entrou, desfazendo o trio. Te Garfo ficou mais ímpar do que já era. Com aquele olhão xadrez se sentiu feito cachorro lambendo os miúdos. Ele se perguntava: e o tal do afeto, onde o pomos?

Caipira na cidade grande, ele até fez um curso rápido de alto prazer. Queria ser uma pessoa G, que tocasse no ponto e no mundo das pessoas. Aprendeu sexo al dente. Até então pensava que al dente era um tipo de comida que já deixava os dentes escovados. Nunca imaginou que fosse coisa de massa, no ponto.

Também aprendeu a oferecer prazer, perguntando ao ser humano, no momento G, se queria champanhe de sidra ou um pró-seco? Vivendo e aprendendo. Te Garfo pensava que só existia doce de sidra feito no tacho de cobre. Se oferecesse champanhe a alguém teria que se casar. Não poderia. Nem curso de noivo ele tinha feito. Porém, toda pessoa autônoma tem o direito de se acasalar, sem se casar.

Ímpar na vida, resolveu se vingar da vida que levava. Entrou na sala virtual de bate-papo. Com o nome Pelúcio, conquistou rapidamente uma mulher de apelido Marie di Muá. Bastou dizer “eu te garfo, Marie”. Como Pantufa, conquistou um macho de nome Dom Bééé.

– Me garfa, Dom Bééééééé.

Mandou foto bonita do Jerry Adriane para a Marie. Foto linda da Rosimeire para o Dom Bééé. Marcou encontro com os dois no mesmo lugar, no mesmo horário. Pantufa conheceria Pelúcio. Exigiu pontualidade: entre nove da noite e 21 horas.

Vizinhos de mesa, Te Garfo queria ver a coisa pegar fogo. Pegou mesmo. O casal se entendeu rapidamente. Ao fazer o pedido da comida, Dom Bééé achou uma gracinha quando Marie disse:

– Não gosto de nada mole na minha boca.

O garçom flambou uma comida na frente dos dois. Te Garfo saiu às pressas para impedir aquele cessar fogo. Pensou que fosse aquele número circense de soltar fogo pela boca. Acabou se sentando junto ao casal. Tentou defender a superioridade de sexo com linguagem sobre sexo com língua.  Sem escutarem, Pantufa e Peúcio o agradeceram por aquele encontro de almas. E foram para o mesmo motel feio da Raposo.

Sozinho, Te Garfo sentiu muita saudade física dele mesmo e se valorizou e pensou a vida. Eu sou um exemplo até pra mim. O problema a dois é perguntar:

Ocê quer ser possuído fisicamente ou de outro jeito? Fisicamente, eu não tenho prática. Do outro jeito eu nunca fiz.

http://www.revistalinguadetrapo.com.br/te-garfo-o-homem-impar-por-silvio-reis/

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