SOCA O REI NAS ALMAS QUE MAIS PRECISAI

Não há lenda que reze a existência de três tipos de devotos, mas eles existem. O primeiro puxa o terço e diz de coração: “socorrei as almas que mais precisai”. É alguém de linhagem pura. Quando criança, ele fazia uso excessivo da preposição desde: “Deus que eu moro aqui”, “Deus que eu me entendo por gente”. Ao ser corrigido, insistiu em outro erro. Falava “Deus te crie” para pessoas já criadas e pregava que Jesus Cristo, “atualmente falecido”, vai voltar.

Uma única fé sempre foi pouco para esse devoto que nem sabe o que fazer com tanto coração. Ele conta: “Aganju me jurou conversas de Deus”, num momento em que esse devoto foi um dos milhões no mundo que se sensibilizou com a criança de três anos, vítima da guerra na Síria. O menino disse: “Quando eu morrer, vou contar tudo a Deus”. Morreu dias depois. E a guerra continua.

O segundo devoto leva imagens peregrinas da padroeira para proteger peões de rodeios, vaquejadas e afins. Totalmente contra esse “modismo” de direito dos animais, a preocupação maior dele, neste momento do país, é reconduzir a boiada de brasileiros a serem burros de carga e levarem uma vida de gado. Ele também reza com devoção: “soca o reio nas almas que mais precisai” de direitos sociais, de saúde e educação: “Quem não é rico não faz universidade. Chega dessa fantasia de igualdade.”

Quando criança, esse devoto gostava de socar o reio nos animais. Hoje, sente prazer em assistir ao açoite social de pobres, negros, mulheres, homossexuais, índios e outro tipo de gente considerada “menor”. Agradeceu ao Divino pelo início da invasão recente nas escolas dos sem-terra. Gostou quando prenderam o teatro, ainda que um único artista. Endinheirado, ele faz investimentos para que só sobrevivam as grandes corporações midiáticas. “Deus é para poucos”, afirma: “Se você não acreditar no meu deus, eu não te respeito e te odeio, em nome de Deus. E para esse povo inconformado com o temer dos novos tempos, falo de todo coração: aceita que dói menos.”

“Soca o rei para defender as almas mais necessitadas” é o lema do terceiro devoto. Sem religião, em criança já expressava uma fé diferente. Enquanto Deus cochilava e cochichava palavras suaves e inaudíveis, o menino gostava de se ajoelhar em salas de bibliotecas, abrir os braços para as publicações e imaginar: “o que eu estaria pensando e sentindo agora se já tivesse lido todos esses livros?”

Em vez de pensar, ele leu muitas cartas de perdão ao rei. Não encontrou nenhuma carta de rei pedindo perdão às almas mais necessitadas e injustiçadas. Naquela época, já com aspirações ambientais, ele se identificou com o diabo verde. Coisa de criança. Acreditou no poder transformador daquele produto desentupidor. “Se era verde o diabo, devia ser ambiental”. Quando descobriu que a fórmula química do produto era prejudicial à natureza, sentiu a solidão dos incompreendidos que andam sem rumo pelas bermas da estrada. Porém, encontrou o seu caminho.

Depois de ter socado os reis das cartas de perdão, hoje ele fica verde de raiva diante de tanto desgoverno. É muito “rei morto, rei posto” a ser eliminado. Desmascarar conta de 23 milhões em paraíso fiscal não adianta. A máscara está colada à cara, como dizia o Fernando (Fernando Pessoa, não é o FHC). Mais de 22 mil pessoas no país têm e abusam de foro privilegiado e outros milhares têm poderio ainda maior.
Com humildade, recorreu a Deus, que cochila e cochicha palavras inaudíveis de amor. Por não saber orar, cantou Tempo Rei: “Transformai as velhas formas do viver.  Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei”. Este ensinamento poderia durar os 20 anos de congelamento de progresso proposto pela PEC 241. Resolveu então estudar uma proposta do diabo comprador de almas. Ingênuo e um pouco letrado, aceitaria ser um Fausto de Goethe, atuar como Mephisto ou até louvar o diabo verde, em nome de causas ambientais.

“Deus não tem paciência com pessoas ingênuas”, alertou o verdadeiro diabo. “Você seria preso até por crimes vermelhos que nem cometeu. Te falo do fundo do meu coração: os únicos que estão livres do inferno são os diabos azuis e amarelos, os tucanados. Aceita ou não deixar de ser palestrante e se tornar juiz? Estamos precisando socar os reis de partidos traidores, antes que o Brasil vire um inferno”.
Antes de encerrar este texto, o primeiro devoto me aconselhou a escrever “laus Deo”, como forma de reconhecimento do autor para com Deus, pela ajuda na feitura do escrito. Assim seja: laus Deo.

http://www.revistalinguadetrapo.com.br/soca-o-reio-nas-almas-que-mais-precisai-por-silvio-reis/

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