Carros de boi tinham placa e musicalidade

Trabalhava na roça. Andou descalço até os 21 anos. Nenhum espinho feria a pele grossa. O que doía os pés era o frio e a geada. Todo dia, e também domingo, ele acordava às cinco da manhã para tirar leite das vacas. Para o frio não paralisar o corpo, colocava os pés na bosta quente que vacas e bezerros tinham acabado de fazer. Alívio para a dor e exercício de humildade na vida.

Este guaxupeano usou sapato pela primeira vez quando se casou. Depois, para não desgastar o calçado, levava o par na mão; só colocava na cidade, na igreja e em festas. Costumava contar uma vantagem.  A sola do pé, onde não entrava caco de vidro nem prego, era mais forte do que o solado da botina.

Homem antigo, se lembrava bem dos anos 1940 a 70, quando a estação ferroviária de Guaxupé era um dos maiores entroncamentos da Mogiana, com quatro linhas e um ramal curtinho até Biguatinga.  Era comum a estação receber diariamente uns duzentos carros de boi, que transportavam sacos de alimentos, cargas de madeira, móveis e o que precisasse.

Na estação de Jureia, distrito de Monte Belo, a média era de 600 carros de boi diários. Para controlar o trânsito de animais, tornou-se obrigatória placa nos carros, carroças e charretes, semelhante aos dos veículos de hoje. E tinham guardas de trânsito para organizar as filas que se formavam, como se esperassem a abertura do semáforo. O que mais impressionava o homem de pés plantados na terra era a conversa cantada dos bois e o ranger dos carros.

 
Musicalização do Som da Roda 

Cavalo 4

No trabalho de conclusão de curso para obtenção do título de bacharel em Composição, apresentado ao Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista, Unesp,  Rodrigo Reis Rodrigues registra uma experiência no distrito de Biguatinga (município de São Pedro da União), onde havia um terminal ferroviário ligado a Guaxupé. Como poucos, ele ouvia música onde todos escutavam barulho.

“Entre 1976 e 1980, na tenra infância, imerso numa soundscape rural e serrana de Minas Gerais, eu era despertado quase todos os dias por uma experiência abissal que acontecia num infinito sonoro. Um fio contínuo se aproximava largamente ao longe em pianíssimo: era o canto da roda do carro de boi. A engrenagem da roda, que fricciona madeira com madeira e exala cheiro de queimado, gemia mais agudo ou mais grave consequente ao peso da carga que transportava.
Ao se aproximar da janela do quarto, que dava para estrada de terra batida, o contínuo se intensificava num crescendo até o fortíssimo. Surgiam sons de outra natureza: secos e stacattos tinham como fonte sonora as patas dos bois que batiam contra o cascalho; o deslizar das rodas pelas estrias do chão craquelavam as pedras; gritos dos carreiros; conversas difusas; carga batendo – colheitas, sacas, madeiras, latões de banha e de leite. Deste modo, eu apreciava o fim do concerto: o contínuo se dissolvia no espaço sonoro num perdendosi ao longe.”
Rodrigo conclui: “Se levarmos em conta que o uso deste veículo de carga remonta a antiguidade, é possível supor que seu som foi ouvido na maior parte do mundo, por diversas comunidades humanas, durante pelo menos sete milênios.”

 

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