Pesquisa da Unesp confirma extinção parcial de Biguatinga

O risco de extinção já tinha sido constatado nos anos 1960. Uma pesquisa para a Universidade Estadual Paulista, Unesp, confirmou: a ave aquática da espécie Anhinga anhinga, que dá nome ao distrito mineiro de Biguatinga,  foi extinta na região serrana do sudoeste de Minas Gerais. No entanto, continua abundante no Pantanal mato-grossense e outras áreas do país, conforme mapa de registro do IBGE (abaixo).
A pesquisa, que integrou o Concerto Eco e se tornará um filme documentário, aconteceu no centenário do distrito, dois anos atrás. Em 1915, quando Biguatinga foi contemplada com uma estação ferroviária, o povoado nem era anexado ao município de São Pedro da União. Naquele tempo, as biguatingas – denominadas de biguá branco na língua tupi – tinham fartura de peixes em rios, cachoeiras e açudes da região. Muitas águas e fontes secaram de lá pra cá.
Cem anos depois da chegada do trem de ferro, o compositor Rodrigo Reis Rodrigues realizou um trabalho de conclusão de curso para obtenção do título de bacharel em Composição, na Unesp. Foram feitas quatro gravações em um sítio desabitado nos arredores do distrito, com um gravador Zoom 2nH, ajustado em surround, 4 canais, captação de 360º e amplitude de 200 m.
O equipamento ficou posicionado em borda de mata e margem de riacho. A primeira e a segunda gravação aconteceram no inverno, em 26.07. Inicialmente, das 6h01 às 7h31, com 45 minutos antes do nascimento do sol (6h46). No mesmo dia, das 17h11 as 18h41, com 30 minutos antes do poente (17h41). O terceiro e quarto registro de áudio ocorreram no verão, em 26.12, seguindo rigorosamente o mesmo padrão das anteriores. As cinco horas de áudio passaram, posteriormente, por análise em laboratório.

Orquestrando cantos

Rodrigo Reis em Biguatinga

Ao mesmo tempo em que gravava, o compositor Rodrigo Reis realizou a oitiva do ambiente acústico, com escritos dos 18 pássaros selecionados e transcritos nas quatro gravações, incluindo biguatingas e alguns insetos. Os registros abaixo foram orquestrados para instrumentos musicais e fizeram parte do Concerto Eco.

Alvorecer, conjunto gradualmente adensando. Os cantos surgiram nesta sequência: Bem-te-Vi, Canário, Saracura, Trinca-Ferro, Seriema, Biguatinga, Cricrió.
À Menor Sombra, solos do dia. Inicialmente, canto do João-de-Barro, seguido por Abelhas, Graúna, Uirapuru, Maú, Acauã.
Crepúsculo, conjunto gradualmente rarefazendo.  Começou com o canto do Cricrio, seguido pelo Irerê, Seriema, Sabiá, Trinca-Ferro, Biguatinga, Saracura, Rolinha, Cigarra, Buraqueira.
Espantos da Noite: solos da noite. Sequência: Coruja Buraqueira, Vagalumes, Sapo, Grilo, Coruja Caburé, Mãe-da-Lua.

“Para dar voz aos pássaros, pesquisei diversos apitos ornitológicos, confeccionados em cerâmica, louça, madeira e metal, o que envolveu oficinas, artesões e pesquisadores de diversos estados do Brasil: indígenas da Amazônia, artesãos do interior do Ceará e Minas Gerais. Além de adquirir estojos de apitos ornitológicos, fabricados no Espírito Santo e em Santa Catarina, utilizei flautas, piccolo, clarinete e violinos para orquestrar os cantos dos pássaros”, informou Rodrigo (na foto, durante uma das gravações).
Outros registros, como o canto do Pintassilgo, Saíra-Amarela e a Corruíra, não resultaram em composição musical por conta dos piados aguados e virtuosos. Dessa forma, a pesquisa foi parcialmente apresentada no Instituto de Artes da Unesp, em São Paulo, com parte do projeto “Eco, concerto para ensemble, galho de árvores, voz e pios.” Na ocasião, o compositor utilizou galhos, apitos ornitológicos, motosserra e outros elementos para realizar uma crítica às políticas ambientais vigentes e exaltar a natureza da vida. “Eco” ganhou voz e terá uma versão documentário em 2017.

Para saber mais:
Ave também conhecida como carará, arará, meuá, miuá,  muiá:
http://www.wikiaves.com/biguatinga
Mapa de registro do IBGE para a ave biguatinga no Brasil: http://www.wikiaves.com.br/mapaRegistros_biguatinga
Concerto Eco no portal da Unesp:
http://unesp.br/portal#!/noticia/23769/a-peca-eco-agrega-sons-de-galho-de-arvores-e-pios-de-passaros/

Foto: araquem.com.br / Pinterest

Publicado:
. Jornal da Região, Guaxupé, 21.07.17
. A Folha Regional, Muzambinho, 18.07 (site) e 21.07.17  http://www.afolharegional.com/portal/?url=incio/especial/pesquisa-da-unesp-confirma-extino-parcial-de-biguatinga

 

 

 

 

 

 

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