Municípios com imagem ambiental têm maior compromisso sustentável


O nome de um município revela dados históricos, socioculturais e, principalmente, políticos. É uma imagem a ser preservada. O Brasil possui centenas de denominações indígenas em 5.570 municípios e 9.750 distritos, gerando associações ambientais com água, plantas, terra e animais.
Após a Constituição de 1988, a descentralização federal deu autonomia para criação, incorporação, junção e desmembramento de administrações municipais. Nas décadas de 1990 e 2010 foram fundadas 1.079 cidades. Destas, 43 adotaram referência animal, que se somaram às 291 nomenclaturas anteriores, a maioria criada entre a Constituinte de 1946 e 1964. Em 18 anos, houve fundação de 2.535 unidades federativas.
Atualmente, uma diversidade de bichos mantém representação nas municipalidades, enquanto denominações indígenas passam por uma extinção gradual. “A toponímia da língua tupi define nomes pelo som do lugar”, informa a doutora em Educação Marta Catunda, no livro O Canto de Céu e de Mata Fechada. “Na pré-história brasileira, centenas de municípios já nasceram exterminando nomes indígenas”, acrescenta a pesquisadora. “O interesse pela exploração econômica sempre esteve à frente. Apagar essas denominações consistia em exterminar a cultura para dominar. Nos anos 70, o desmembramento do maior município do mundo, Chapada dos Guimarães, desfez um imenso território Bororo, Umutina e Kayapó”.
Dados desta pesquisa mostram que municípios de cinco estados do Norte, com grandes áreas verdes, biodiversidade e população cada vez menor de índios, não vinculam suas imagens institucionais aos bichos. Ao mesmo tempo em  que o Brasil conta com denominações municipais preservacionistas, o país é um dos maiores produtores, consumidores e exportadores de carne do mundo. A emancipação política de Rio dos Bois (TO, 1993) e Gado Bravo (PB, 1994) refletem essa realidade. Por outro lado, a ecológica Sooretama (ES, 1994), é a terra e refúgio dos animais da mata.
Ao longo da história, administrações municipais mudaram de nome. Em Santa Catarina, Graccho Cardoso já se chamou Tamanduá. Lima Duarte substituiu Nossa Senhora das Dores do Rio do Peixe, em Minas Gerais. Também foram substituídas e apagadas trilhas, estradas e bandeiras de índios, em São Paulo. Por outros motivos, nos anos 1960 foram criados e logo desfeitos 252 municípios no Amazonas e 154 no Ceará, com diversos nomes indígenas e de animais.
Denominações dessa natureza são simbólicas e não estão vinculadas à preservação do meio ambiente. O desconhecimento popular sobre termos tupi-guarani ainda mascara a origem do nome. Um município com raiz ambiental na denominação tem um motivo a mais para assumir compromissos sustentáveis, mesmo que seja para não ficar com o nome sujo na praça, no Estado e no país.

 

334, por enquanto

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, ainda não dispõe de um relatório sobre a quantidade de nomes indígenas nos municípios e distritos brasileiros, nem de denominações animais. Diversos estudos nessa área contribuem com informativos relevantes, mesmo diante de dados imprecisos e controvérsias quanto à origem do registro de batismo.
A partir de dados do IBGE, sites oficiais de municípios, Wikipédia, Confederação Nacional dos Municípios (CNM), Centro de Estudos Ornitológicos  (CEO), dicionários brasileiros da língua indígena  e outras fontes, foi possível selecionar 334 municípios com nomes de animais. Distritos não entraram na listagem.
Esta quantidade pode ser alterada, para mais ou menos, se houver contribuições de especialistas e estudiosos sobre essa forma de abordagem. De qualquer forma, a pesquisa possibilita diferentes análises sobre o tema.

Estados e regiões

SP (56), PR (31), MG (28), CE (26), SC (23), PB (22), BA (18), RS (17), PA (15), PE (12), RN (12), SE (12), ES (10), PI (10), GO (09), MT (07), TO (07), AL (05), MA (04), RJ (04), AM (01), DF (01), AP (01), MS (01), RO (01), RR (01), AC (00).

Sudeste: SP (56), MG (29), ES (10), RJ (04). Total: 99.
Sul: PR (32), SC (23), RS (17). Total: 72.
Nordeste: CE (26), PB (22), BA (18), PE (12), RN (12), SE (09), PI (10), AL (05), MA (04). Total: 118.
Centro-Oeste: GO (09), MT (07), DF (02), MS (01). Total: 19.
Norte: PA (15), TO (07), AM (01), AP (01), RO (01), RR (01), AC (00). Total: 26.


Últimas décadas  

Diferentemente da predominância de aves e peixes em épocas remotas, a partir de 1990 constata-se uma diversidade mais equilibrada de animais.

Os estados que lideravam o ranking de nomenclaturas de bichos até o Censo de 1980 (SP, PR, MG, CE, SC) mantiveram a associação, com acréscimo de 4 e 3 novos municípios.

Na região Norte, Tocantins, fundado em 1988, seguiu essa tendência, chegando a 9 municípios. Acompanhou o Pará, que ganhou mais 3 nomenclaturas recentes. Foram nos dois últimos censos que Amapá e Roraima tiveram as suas primeiras unidades federativas relacionadas a animais.

Houve aumento de municípios nas cinco regiões. Dos 26 estados, 18 e o Distrito Federal, aderiram à associação com bichos.

. Acréscimo de 4. PR: Arapuã (1997) Ariranha do Ivaí (1997). Pato Bragado (1990). Santa Cecília do Pavão. (1990). SC: Gaivota (1995). Irati (1992). Pescaria Brava (fundado em 2003, emancipado em 2013) Tigrinhos.(1995). SP: Alambari.(1993) Araperi. (1991) Borebi. (1990) Ubarana. (1992). Total: 12.
. Mais 3 cidades. CE: Ararendá (1990). Choró (1992). Jijoca de Jericoacoaral (1991). MG: Lontra.(1993), Periquito. (1995) Sem-Peixe (1995). PA: Jacareacanga (1991). Quatipuru (1997) Tracuateua (1994). PI: Acauã (1997). Patos do Piauí (1993). Paquetá. (1997). PB: Gado Bravo (1994). Parari (1994) Zabelê (1994). TO: Rio dos Bois (1993) Jaú dos Tocantins. (1993) Piraquê (1993). Total: 18
. Dois municípios a mais ES: Sooterama (1994).  Vila Pavão (1990). RJ: Quatis (1991) Macuco (1995).  Total: 04.
. AP: Cutias (1992).  GO: Uirapuru (1992). MA: Raposa (1994), MT: Lambari D´Oeste (1993). PE: Xexéu. (1991). RN: Jundiá. (2000). RO: Cujubim (1994).  RS: Araricá. (1995). Distrito Federal: Recanto das Emas (1993). Total: 09
Animais substituídos

Esta amostra de 20 substituições (e 1 empate) reforça o interesse social e político por denominações animais no país. O inverso também ocorre, nomes de bichos já foram substituídos.

. No AP, antes de Satuba, o município se chamava Carrapato.
. BA. Correntina alterou Rio das Éguas. Gandu  Corujão. Licínio de Almeida, Gado Bravo. Tanhaçu, Porcos.
. MG. Lima Duarte substituiu Nossa Senhora das Dores do Rio do Peixe; Mar de Espanha, Nossa Senhora das Mercês do Cágado; Paraisópolis já se chamou Formiguinhas e São José das Formiguinhas.
. PE, Frei Miguelino já se chamou Olho d´Água da Onça. Carpina já foi Floresta dos Leões.
. PR, Francisco Beltrão substituiu Marrecas.
. RN, Equador já foi Periquito. Gavião antecedeu Umarizal.
. SC, Peritiba substituiu Arroio dos Veados e Alto Veado. Piratuba já foi Rio do Peixe. Rio Oeste era Barra das Pombas. Distrito de Ilhas das Flores, Ilha dos Bois. Graccho Cardoso já foi Tamanduá.
. SP, Aguaí já foi Cascavel; Bady Bassit era Borboleta.
Ficou elas por elas: Andorinha substituiu Fazenda do Gato, na BA.
Critérios adotados

. Além de nomes de animais, de forma direta, ou na raiz, junção e aglutinação de termos indígenas, fazem parte desta listagem expressões alusivas, como Formigueiro (RS), Colmeia (TO), Pacatuba (CE), Tartarugalzinho (AP). Em SC, Pescaria Brava e Irati (mel em quantidade).

. Diversos nomes de rios compõem a lista: Quaraí (RS, garças), Pacajá (PA, pacas), Andaraí, (BA, morcegos), Sirinhaém (PE, prato de siri), Matrinchá (GO, peixe matrinxã), Guará (DF, lobo), Jaú e Tatuí (SP), Jacarepaguá (RJ).

. Caracol, no PI, já foi chamada de Formiga e possuía um riacho em formato espiral. Já o Caracol de Mato Grosso não nenhum referencial, e a cidade Dourados não tem relação com o peixe Dourado.

. Em alguns casos, o site do município divulga origens opcionais. No RS, Capão do Leão e Boqueirão do Leão podem ser originários do nome de pessoas como também de histórias populares, como um leão que fugiu do circo. Na região, onças eram chamadas de leões.

. Há referenciais em sentido inverso: Sem-Peixe (MG) e Upanema (RN, rio sem peixe). Piratininga (SP) tem o significado de peixe frito, mesmo se tornando oficialmente uma homenagem a uma localidade da capital paulista.

. Touros, no RN, foi fundado em 1501, mesmo sem haver bovinos no país, naquela época. Por fim, o único nome mítico é Fênix, no PR.

garças

A relação abaixo foi estruturada com a sigla do estado, a quantidade de municípios e o total de cidades com nome de bichos, independente do ano de fundação.

AC (22 – 00)
AM
(62 – 01): Anori.
AL (102 – 05): Jacaré dos Homens. Jacuípe. Maribondo. Piranhas. Traipu.
AP (17 – 01): Cutias.
BA (417 – 18): Amargosa. Andorinha. Andaraí. Antas. Arataca. Gavião. Guanambi. Guaratinga. Inhambupe. Ipirá. Irará. Itacaré. Itiúba. Jucuruçu. Mutuípe. Pintadas. Tanhaçu. Tucano.
CE (184 – 26): Acaraú. Aracape. Ararendá. Aracoiaba. Aratuba. Banabuiú. Canindé. Cariré. Cascavel. Choró. Chorozinho. Coreaú. Ererê. Guaramiranga. Jaguaribe. Jijoca de Jericoacoaral. Maracanaú. Meruoca. Pacatuba. Paracuru. Potengi. Potiretama. Tejuçuoca. Trairi. Tururu. Uruoca.
ES
(78 – 10): Águia Branca. Apiacá. Baixo Guandu. Ecoporaga. Guaçuí. Guarapari. Jaguaré . Muqui. Sooterama. Vila Pavão.
GO (246 – 09): Inhumas. Jandaia. Jataí. Mutunópolis.  Piracanjuba. Piranhas. Uirapuru (1992). Uruaçu. Urutaí.
MA (217 – 04): Arari. Curupuru. Raposa. São João dos Patos.
MG (853 – 29): Aiuruoca. Araguari. Araponga. Carneirinho. Formiga. Guaxupé. Guiricema. Gurinhatã. Iapu. Inhapim. Inhaúma. Itanhandu. Jacuí. Jacutinga. Lagoa dos Patos. Morro da Garça. Mutum. Lontra. Papagaios. Patos de Minas. Pavão. Perdigão.  Perdizes. Periquito. Pirapora. Rio Pomba. Santa Rita de Jacutinga. São Miguel da Anta. Sem-Peixe.
MT (141 – 07): Alto Garças. Barra do Garças. Guiratinga. Jauru. Lambari D´Oeste. Nova Mutum. Tangará da Serra.
MS (79) – 01): Jateí.
PA
(144 – 15): Acará. Bagre. Bujaru. Jacareacanga. Jacundá. Juruti. Marapanim. Moju. Oriximiná. Pacajá. Peixe-Boi. Quatipuru.
Trairão. Tucuruí. Tracuateua.
PI – (224 – 10): Acauã. Caracol. Inhuma. Patos do Piauí. Piancó. Paquetá. Piracuruca. São José do Peixe. Sussuapara. Uiraúna.
PB (223 – 22): Arara. Araruna. Emas. Gado Bravo. Guarabira. Gurinhém. Jacaraú. Juripiranga.  Mataraca. Mogeiro. Montadas. Parari. Patos. Poço Dantas. Picuí. Riacho dos Cavalos. São João do Rio do Peixe. São João do Tigre. Santana dos Garrotes. São José de Piranhas. Uiraúna. Zabelê.
PE (184 – 12): Bezerros. Buíque. Cabrobó. Cupira. Lagoa dos Gatos. Mirandiba. Pombos. Sanharó.  Sirinhaém. Surubim. Tracunhaém. Xexéu.
PR
(399 – 32): Andirá. Arapongas. Arapuã. Araruna. Ariranha do Ivaí. Barra do Jacaré. Cambé. Carambeí. Cascavel. Fênix. Guaraniaçu. Guarapuava. Guaratuba. Guaraqueçaba. Icaraíma. Iretama. Jaboti. Jacarezinho. Jaguapitã. Jaguaraíva. Jandaia. Japira. Mandaguari. Mandaguaçu. Mandirituba. Marumbi. Pato Branco. Pato Bragado. Santa Cecília do Pavão. Piên. Piraquara. Salto do Lontra.
RJ (92 – 04): Cordeiro. Jacarepaguá. Quatis. Macuco.
RN (167 – 12): Acari. Caicó. Canguaretama. Ceará-Mirim. Galinhos (peixe-galo). Jaçanã. Japi. Jardim de Piranhas. Jundiá. Lagoa d´Anta. Tangará. Touros.
RR (15 – 01): Caracaraí.
RO –(53 – 01) Cujubim.
RS (497 – 17): Anta Gorda. Araricá. Aratiba. Arroio do Tigre. Arroio dos Ratos. Boqueirão do Leão. Capão do Leão. Condor. Formigueiro. Jacutinga. Jaguari. Jaquirana. Panambi. Poço das Antas. Quaraí. Sapucaia do Sul.  Vacaria.
SC (295 – 23): Araranguá. Araquari. Balneário Gaivota. Biguaçu. Capivari de Baixo (1992). Guaramirim. Ipira. Irati. Itapema. Jaguaruna. Lontras. Maracajá. Marema. Pescaria Brava. Piratini. Piratuba. Quaraí. Rio das Antas. Sinumbu. Tangará. Tigrinhos.Tubarão. Urubici. Xanxerê.
SE (75 – 09): Aracaju. Campo de Brito. Canindé de São Francisco. Lagarto. Malhada dos Bois. Muribeca. Maruim. Pirambu. Propriá.
SP (645 – 56): Alambari. Anhembi. Anhumas. Araçariguama. Araras. Ariranha. Arujá. Araçoiaba da Serra. Arandu. Araperi. Araraquara. Birigui. Borebi. Boituva. Cabreúva. Capivari. Cotia. Embu-Guaçu. Garça. Guará. Guaraçaí. Guareí. Guariba. Guaratinguetá. Irapuã. Irapuru. Jacareí. Jacupiranga. Jaguariúna.  Jaú. Jeriquara. Jundiaí. Mogi Guaçu. Mogi Mirim. Mombuca. Morungaba. Piracaia. Piraju. Santo Antônio do Aracanguá. Pacaembu. Pariquera-Açu. Piraju. Piratininga. Pirassununga. Piracicaba. Piracaia. Piquerobi. Quatá. Sarutaiá. Taciba. Taiaçu. Tanabi. Tapiraí. Tatuí. Uru. Ubarana.
TO (139 – 07): Araguaçu. Colmeia. Peixe. Rio dos Bois. Jaú dos Tocantins. Piraquê. Pium.
DF (10 – 02). Guará. Recanto das Emas.

Pela quantidade de citações em termos indígenas, a arara pode ser o animal-símbolo dos municípios brasileiros, assim como as garças. Os distritos, tema da próxima pesquisa, poderão manter esta ave ou serem representados por outro bicho.

 

 

 

 

 

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