“A Sombra…” no Suplemento Literário de Minas Gerais

Em novembro de 2016, o Suplemento Literário de Minas Gerais publicou, na edição n. 1368, minha crítica literária.

O prefácio avisa: “Ao abrir este livro, deixai toda esperança”. A contracapa informa: “São textos filosóficos que nos convidam à reflexão sobre o sentido último da existência”. A Sombra dos Inventados é o mais recente livros de contos de Francisca Vilas Boas, uma das pioneiras do miniconto no Brasil, junto com Elias José, Sebastião Rezende e Marco Antônio de Oliveira, conforme atesta o crítico literário Márcio Almeida.
Depois de duas edições bilíngue, em 2015, neste livro Francisca torna o realismo mágico ainda mais fantástico.

Começando pelo fim. Ao chegar ao 23º conto, que dá título ao livro, deparamos com o alerta do personagem filósofo: “Falam coisas estranhas daquelas que falei. Diferentes do meu pensar.” Nesse texto, “Frases eram incineradas sem nenhum gemido” a partir do incêndio em uma caixa de livros. E o que aparece no texto a partir desse incêndio é o encontro de personagens de algumas obras clássicas que se levantam da caixa incendiada e tropeçam em frases e queixas como se estivessem em um labirinto. Algumas dessas personagens surgem de livros como O Nome da Rosa; O Castelo; O Estrangeiro; Esperando Godot; Dom Quixote de la Mancha; Anna Karenina e outros. Nesse conto, a importância do livro e a influência da leitura aparecem como sombras que atravessam e deixam seus rastros no tempo.

Há vários ângulos, literários ou pertencentes à vida, que podem ser abordados a partir da leitura de A sombra dos inventados. O valor da palavra e do silêncio aparecem focalizados de formas sutis e distintas. Em Ludok“ (…) as palavras não passavam de sombras pálidas e fugidias depois de pronunciadas.” Teria ele substituído as palavras pelas cores? “O silêncio das sereias já fora apontado como forte arma de poder.” (A vingança do silêncio). A moradora de rua do conto Dentro do vácuo não consegue estabelecer a comunicação com o mundo que a cerca. Monossilábica, dirige-se sempre aos passantes com um desfigurado “olá”. Do seu corpo escorre o suor da solidão que umedece a sarjeta. No conto O caminho o silêncio auxilia o personagem a olhar e a descobrir a vida que o circunda. A solidão é o seu próprio trajeto de vida.

A autora esbanja grande domínio ao escrever, alcança níveis poéticos, esculpe frases, rejeita excessos e alcança grandes momentos poéticos. Ao mesmo tempo, enaltece outras formas de comunicação. Há fartura de metamorfoses em A sombra dos inventados.  O homem isolado no sítio (O caminho) passa pelo envelhecimento físico e pela possibilidade de ser um exemplo de um corpo de luz, diferentemente de Emildo que se torna pássaro após acordar de um estranho sonho percebe que seu corpo passou por transformações (Um povoado estranho). Até as sereias já não são mais as mesmas e se metamorfosearam. As pedras também mudam, com formatos que o tempo se encarregara de criar.

Familiar ao miniconto, do qual é uma das pioneiras no país, os parágrafos com uma só frase são recorrentes nesta obra: “As horas pobres e sem horizontes desestimulavam os sonhos.” Cabe ao leitor prosseguir sua leitura e ir descobrindo outros elementos presentes nos contos. Francisca Vilas Boas é defensora de que o leitor viaje pelo imaginário durante a leitura e se descubra. Como disse Antonio Muñoz Molina: “A leitura é uma janela e também um espelho.” Muitas vezes a riqueza imagística dos contos se aproxima da estrutura audiovisual. Leitura para alguns filmes.

A solidão é outro traço entranhado na construção de quase todos os personagens. Juntamente com a metamorfose, quase sempre representam a única opção. À beira de um abismo existencial, “o homem teria apenas a sua sombra para conviver.”

Um corpo se apaga na névoa quando a solidão espessa o asfixia. Em A ilusão sob as névoas a ausência apodera-se do corpo do personagem, condenando-o “(…) à força do alheamento.”Há quem enfrente um processo fênix e, entre o passo e o voo, torna-se pássaro, já que não se adaptou à vida humana. Esse triste esqueleto do “conviver apenas com a própria sombra” sustenta vários personagens do livro. É o caso de À espera da estrela; Óbvio e vertigem e no aqui sempre pouco.

Em A escolha do círculo a solidão e a morte compõem um diálogo esférico. De modo comum, o mundo social valoriza a ação e condena o isolamento. Alguns personagens vão em direção à morte quando a vida lhes impõe metamorfoses, como o naufrágio vivido por aquele que foi transformado em ‘metade homem, metade peixe’ ou a mulher que se tornou uma tosca estátua de madeira (Dissolução). Há personagens que não suportam a pressão que ferroa a carne e o desejo, e vivem a derradeira vertigem (O imortal) Um tiro de revólver leva ao último silêncio para quem amou mais a arte do que a vida. Tiros em outros contos fazem cair a máscara. A tênue linha que separa a metamorfose da máscara atravessa muitos contos no livro.

A certeza é que este livro tem muito a dizer, seja através da síntese da linguagem; seja através da linguagem poética; seja através da linguagem de muitas faces e imagens. Ou de temas identificados com o gênero fantástico que, no entanto, revelam a vida comum do dia a dia.  Ao abrir e ler A sombra dos inventados, a autora parece centrar sua esperança no conhecimento que deve desvendar o homem para o homem; o mundo para a humanidade. E o caminho mais seguro para o conhecimento é o livro e sua leitura.  Assim, o final do último conto, quando a caixa de livros ressurge incólume após o incêndio, ela parece encarnar o desejo da autora. Talvez a literatura, como um bom farol, ainda possa iluminar o real. “Talvez.”

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