Gal Costa solta os bichos

 

Tigresa e Vaca Profana são alguns dos animais – fortes e simbólicos – na obra de Gal Costa, que canta outras formas de natureza humana: “sou triste, quase um bicho triste.”  “Passarim, passarão no passaredo”  é de Borzeguim, uma das canções mais ecológicas da cantora. Lançada em 1982, fala de preservação ambiental e se diferencia do contexto animal de dez anos, em Águas de Março (Gal e Daniel Jobim). De essência Plural, em mais de 50 anos de carreira, Gal cantou bichos do céu, do mar e da terra. E ainda fez uma revelação admirável.
Animais em canção dizem muito sobre sentimentos e pensamentos de uma determinada época. Eles são a “cara do mundo.” Os mais cantados no cancioneiro brasileiro são os pássaros. Em diferentes voos, Gal registrou quatro diferentes sabiás. De volta ao começo, teve “minha sabiá” no primeiro disco Domingo, na música Zabelê. Depois de Ave Nossa e Pra machucar meu coração, o quarto Sabiá pousou num encontro entre Gal, Chico e Milton (que também gravou outros quatro diferentes sabiás).
Cantora tropical, há uma diversidade animal logo no início da carreira. Em Fruta Gogoia, Gal se traduziu como tiranaboia. Sebastiana resgatou expressão antiga: “E pulava que nem uma guariba.” Numa época de proibições, “os urubus passeavam entre os girassóis” e algumas verdades eram metafóricas:  “Assum Preto veve sorto mas num pode avuá”.  Enquanto Acauã cantava para manter a tristeza da seca, um Tuareg de outro sertão cavalgava em cavalo preto brilhante.
Canção de um compacto de 1970, o rock Zoilógico ironizou um sucesso de Roberto Carlos. Um leão solto nas ruas altera a ordem estabelecida.  “Logo sou o menino que abriu a porta das feras / No dia em que todas as famílias visitavam o zoo.” Gal revisitou Índia. Era preciso “cantar como um passarinho”  na ditadura militar de 1973. Voando no tempo, Gaiolas Abertas dos anos 1980 alertou: “Voa, bate asa e vai embora / Mas há perigos lá fora.”
“Bico de pena pio de bem-te-vi. A rama, o sapo, o salto de uma rã.” Antes do disco “Cantar”, 1974, João Gilberto cantarolava A Rã como se fosse sapo. O tempo dos animais, nas canções, tem uma cronologia peculiar e poética. Em Chuva na Roseira, as estações do ano são bem definidas: “um tico-tico mora ao lado / E, passeando no molhado, Adivinhou a primavera.”  Quase não há mais sinfonia de pardais, mesmo assim Ave Maria no Morro, gravada por Gal em 2003, é uma música atemporal desde 1942. Por essas e outras tantas, Gal também é zoomusical.

Outros re-cantos

1976 foi o ano do Peixe. Em Doces Bárbaros, peixe-espada, peixe-luz; o peixe no aquário nada. “Peixe, deixa eu te ver Peixe.” Em Canta Caymmi, “Canoeiro bota a rede no mar / Cerca o peixe, bate o remo”. “Gente que leva o peixe / Peixe que dá dinheiro, Curimã. “Deixa o peixe n’água que é uma festa” – verso de Borzeguim, que cita uma floresta de bichos brasileiríssimos na música: tatu-bola, capivara, anta, jacu, lagarto, gavião e cutucurim, onça, peixe, “passarim”.
Expressões populares e referências literárias estão na zoomúsica de Gal. “Cada macaco no seu galho, chô chuá”. “Onde está o dinheiro? O gato comeu.” “Gente é gente, gato e gato, barata pode ser um Barato Total.” Enquanto seu lobo não vem, a Ovelha Negra da família oculta “o sorriso do gato de Alice”. No cinema, sem pulgas na geral e Sem Grilo, Tieta bem-te-viu e chamou o seu amor: “Cabrito vem me ver”. Na revolta, o Cabra da Peste manda avisar:  “Urubu não come folha” e goleiro com fome é um frango aqui, ali, um frango acolá. “Quando a governanta der o bode…”. “Que bode é esse?”, pergunta quem acorda para cuspir. Melhor não azucrinar, senão ela pode virar uma Arara.
A partir dos anos 1980, músicas de Gal Costa passaram a ter uma diversidade maior de animais: ira de tubarão, zum de besouro, lobo correndo em círculo pra alimentar a matilha e o lobo do lobo do homem. Foram importados o “Feroz animal sussurra seu doce gorjeio” – de Volver a los 17 – eNão sou mais que um carneirinho perdido” – no dueto Gal e Cauby.
Pavão de plumagem branca, curiós mudos de voz, assum branco, uirapuru no seio da mata, papagaio nenhum solta um pio. De gogoia para “Gibóia sou eu, lenha que queima na porta do formigueiro e ouriça o pelo do tamanduá.”
No atual re-canto zoomusical, a cara do mundo tem “cara de peixe-boi, pássaro azul, cara de cobra, cara de beija-flor, cara de cara, cara do meu amor.” Ah, o Amor! “Ela é tão bonita. Ela que também amava os animais.” A Terra.
Gal vai continuar soltando os bichos e algumas saudades. Na série biográfica “O nome Dela é Gal”, a Gracinha conta que passeava, na adolescência, com a galinha Boazinha, lá em Salvador.  As duas, cheias de graça.

 

 

 

 

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