Mães com amor de galinha e pata

Antes de saírem do ovo, pintinhos se comunicam com a galinha-mãe. É inaudível para os humanos. A galinha ouve e responde com pios carinhosos. Passa segurança aos filhos.  É bonito assistir a esse afeto. Pesquisei e não vi comunicação semelhante entre a pata antes da ninhada.
Na véspera de eclosão dos ovos, a galinha fica até uns três dias sem comer e fazer necessidades. (A gente leva milho e água no ninho). A pata sai para um passeio de quase duas horas no dia da eclosão. Retorna com as penas molhadas e se deita sobre os ovos quentes. Nem por isso, é uma mãe fria. É outro tipo de amor.
Penso sempre nos pintinhos de chocadeira. Será que antes do nascimento eles fazem algum contato com a mãe imaginária ou o processo industrial elimina esse instinto? Já nascem aquecidos, mas deve ser muito frio não ter a mãe após o nascimento.
Patas não manifestam surpresa ou contentamento com a chegada dos filhotes. E assim que deixa o ninho já acontece o batismo. Pode estar chovendo, ela os leva para nadar. Á noite, alguns dormem ao lado da mãe, debaixo ou acima da asa. Elas são muito menos protetoras do que as “primas” gansas – da mesma família Anatidae – que defendem filhos e o território, até mais do que um cão. Defende o macho também, parceiro único para a vida toda.
Nos primeiros dias, a galinha mantém os pintos debaixo das asas ou muito próximos. O mundo externo é apresentado aos poucos. Ai, ai, de quem se aproxima! Nem o galo se atreve. Algumas espécies, maternais demais, como a galinha de pescoço pelado, até conseguem impedir o gavião de levar uma das crias. Outras, como a índia, não são indicadas para chocar e criar. Já vi uma que abandonou cinco filhos. Uma mamãe carijó adotou todos e ficou com 17 – 12 pintos com um mês de idade e 5 recém-nascidos.
Nunca vi pata que chocou ovos de galinha e criou pintinhos. Ou ela quebra os ovos, abandona o ninho ou mata pintinhos quando nascem.  Dependendo da galinha, não só aceita os grandes ovos de pata como ainda altera a sua própria natureza. Passa de 22 para 40 dias, chocando. Passeia meia hora em dias alternados.
Depois, o estresse é diário. Os patinhos vão para a água, a galinha entra em pânico. Todo dia ela ensina o que um pato nunca vai aprender: a arte de ciscar. A mãe anda muito, os filhos não acompanham o ritmo. Os patinhos se libertam antes do tempo. A galinha fica perdida e certamente se perguntar: “onde foi que eu errei?”
No começo, a galinha-mãe chama os filhos para comer e compartilha a refeição. Patas ensinam a disputar alimento, inclusive com os filhos. Ambas não têm a natureza pelicana de extrair o sangue ou a própria carne para alimentar filhotes, se faltar comida.
Mesmo se desligando gradualmente dos franguinhos, eles piam demais, de forma sofrida, quando o abandono se efetiva. Os órfãos dormem juntinhos. Patinhos já convivem, desde o primeiro dia de vida, com certa distância da mãe. São educados para o mundo fora da família.
São duas mães de natureza diferente. Uma não é melhor do que a outra. Ambas criam filhos sem a participação paterna. Aliás, se o pato considerar que os filhotes geraram superpopulação no local, ele bica e mata um dos recém-chegados, para fazer esse alerta e exibir reinado. Alguns bichos são pais presentes, outros vão além. O cavalo marinho macho engravida no lugar da fêmea, mas não assume a maternidade.
Os amores materno e paterno determinam a nossa saúde emocional pela vida toda. Alguns animais podem nos indicar ações e afetos. As boas referências da galinha não são suficientes porque provocam carências, quando o cordão umbilical é cortado. O ideal é unir a educação da galinha com a da pata, que cria os filhos para nadar, andar e voar.

(O Ovo, Arnaldo Antunes)

 

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