O cavalo branco e o riso amarelo de Zeca Baleiro

“Sutil como um leão-marinho”, Zeca Baleiro alterou o reinado dos pássaros no cancioneiro brasileiro entre 1960 e 1980.  Nos 20 anos de carreira discográfica deste compositor maranhense (1997-2017), o cão e uma bicharada diversificada registram comportamentos sociais e identificações pessoais.
Bashô e Brigitte Bardot não têm citações zoo nas músicas de Baleiro, mas estes dois representantes da natureza e da causa animal reconheceriam que poucos cantores têm seis capas de álbum com imagem de bichos (inclusive de pelúcia): Lado Z  (vol. 1 e 2), O coração do Homem Bomba (vol..1),  dois Pet Shop Mundo Cão e Líricas.
As histórias musicadas em Zoró (Bichos Esquisitos), criadas para os filhos de Baleiro e a criançada, ganharam reforço com o dvd, vídeos e aplicativos de A Viagem da Família Zoró, totalizando 28 bichos. No musical infantojuvenil Quem tem Medo de Curupira?, a cobra é de fogo e os heróis folclóricos são “mais temidos que a onça feroz”.
Ele bebeu da fonte zoomusical de dois compositores representativos das décadas de 1970 e 1980. Raimundo Fagner e Zeca Baleiro compuseram juntos e regravaram sucessos em cd e dvd. Em Amor Escondido, “Pássaro mudo longe do ninho / Sem força pra voar.” Pau de Arara: “Enquanto a minha vaquinha / Tiver o couro e o osso…” É clássica a adaptação de Fausto Nilo para uma canção medieval e anônima do século XVI:  “Não vá pra perto da cidade / Ser prisioneiro feito Passarim.”
No tributo a Zé Ramalho, oito canções com animais simbólicos e reais, como Ave de Prata, A Dança das Borboletas e Admirável Gado Novo: “Ê, ô, ô, vida de gado / Povo marcado, ê! Povo feliz!” Outro registro dessa época é um lançamento de 1982, gravado para uma trilha de novela: “Não se admire se um dia / Um beija-flor invadir (…) Ai, que saudade d´ocê.”
Até outubro de 2017, o site zecabaleiro registrou 10 discos de estúdio, 5 cds ao vivo, 9 dvds, vários projetos especiais e 21 álbuns de artistas pelo Saravá Discos, criado por Baleiro. Este acervo foi analisado pelo viés zoomusical.


“Montado na onça”

Com características de trovador nordestino e cronista urbano brasileiro, Zeca Baleiro mescla uma poética apurada com bom humor. Não poupa crítica aos estrangeirismos, não economiza citação de marca de produtos e nem nomes de famosos, em títulos e letras. Algumas pérolas foram expostas em Bienal: “Minha mãe certa vez disse-me um dia / Vendo minha obra exposta na galeria / ´Meu filho, isso é mais estranho que o cu da gia  / E muito mais feio que um hipopótamo insone.”
Na literatura, Baleiro musicou a Desesperança do maranhense Sousândrade (1883-1902), poema de e.e. Cummings (1899-1962) e de Alice Ruiz. De Emily Dickinson (1830-1886), I´m Nobody: “Como é triste – ser – alguém! / Quão público – como uma rã”.
Dez poemas de Hilda Hilst, do livro Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão resultaram em Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé – de Ariana para Dionísio. Há uma citação zoomusical: “E entre o pátio e a figueira / Converso e passeio com meus cães”.
Os cachorros de Zeca Baleiro, em quase dez músicas, registram uma época do Brasil e do mundo cão. “Já tenho um filho e um cachorro / Me sinto como num comercial de margarina / Sou tão feliz quanto os felizes.” No entanto, “Não quero ser alegre / Como o cão que sai a passear com o seu dono alegre.” Na Flor da Pele, “Um cão sem dono”. “Eu sou cachorro louco / Que anda solto pelo mundo”, “Olho duro, espessa baba / Latindo pra lua o seu capricho.”
Quantitativos, bovinos têm abordagens diferenciadas: bezerro desmamido, vaca mocha, boi mandingueiro, ê bumba iê.  “Eu cuido da minha vida não sou boi que vai pra o abate”, “Bem que sou manso / Mas não sei mugir.”
Mulheres são cantadas como “Um ser maravilhoso / Entre a serpente e a estrela” e um quase oposto: “Es uma víbora”. “A mulher é como cobra / Tem sangue de peçonha.” Com A Serpente (outra Lenda), Baleiro e parceiros resgatam a ilha de São Luís do Maranhão: “Eu quero ver a serpente acordar / Pra nunca mais a cidade dormir.” Na parreira com Chico César, Pedra de Responsa afirma: “Eu volto pra ilha nem que seja montado na onça.”
Na sequência dos bichos mais cantados, “Não há cavalo bom que não relinche“, “A maior joia do meu garimpo / O meu cavalo, o meu Olimpo.” Novamente à Flor da Pele, “Cavalo sem sela / Um bicho solto”.
“Contradança de pavão”

Para cantar o amor, diversos bichos: “Tô num buraco fraco como galinha d’angola”, “Beijei seu sexo / Puro mel de abelha”, “Ah, eu te dava os leões do meu palácio / Morena, toma este poema / Meu canto de seriema”, “Me sinto (…) Uma andorinha baleada na asa / Um galo de briga bravo”. A formiga idealiza trenó com renas para a amada, mas também deseja: “Barata que te roa”.
Urubus querem carniça. “Colônias de abutres colunáveis / Gaviões bem sociáveis” nem enxergam os pombos no asfalto – “Eles sabem voar alto / Mas insistem em catar as migalhas do chão.” É o Blues do Elevador do bicho homem:Mais sozinho que um elevador vazio.”

Por essas e outras, animais são grandes companhias e referências zoomusicais.

Publicado:
http://www.substantivoplural.com.br/o-cavalo-branco-e-o-riso-amarelo-de-zeca-baleiro/

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