Lenine e Chico César caíram na rede e no agronegócio

Na Paraíba de Chico César, dos 223 munícipios do estado 22* têm nome de animal. Luís Gonzaga, conterrâneo pernambucano de Lenine, foi um dos cantores que mais gravou música com citação animal. Diante dessas influências culturais, Lenine e Chico César adotaram o conceito Menos é Mais. Menos bichos nas músicas, mais conteúdo ambiental e cultural.
Depois de ter sido secretário estadual de Cultura da Paraíba, Chico César disparou uma zoomúsica contra os Reis do Agronegócio: “Vocês que criam, matam cruelmente bois / Cujas carcaças formam um enorme lixo / Vocês que exterminam peixes, caracóis / Sapos e pássaros e abelhas do seu nicho.”
Lenine fez campanha para o WWF-Brasil, ong de conservação da natureza, e participou do “I’m Alive: The Floresta da Tijuca”. Cantou diversos Bichos do Mar para o projeto Tamar, protetor de tartarugas e ecossistemas marinhos. Para um bloco de carnaval carioca, Eco no Ar se inspirou na Eco-92: “É do tamanho do abraço do tamanduá.”
O cruzamento da obra de Lenine e Chico César revela pontos comuns. Ambos têm letras e músicas sofisticadas, independente de citação zoo. Começaram carreira solo nos anos 1990, quando a zoomúsica era menos cantada do que nas duas décadas anteriores. O animal mais cantado pelos dois é o peixe, que convive bem com uma diversidade de bichos em músicas próprias e de outros autores.
Esta análise zoomusical se restringiu às canções citadas no site oficial de cada um deles, com alguns informativos adicionais.

Leões do Norte

Baque Solto é o primeiro álbum de Lenine em parceira com Lula Queiroga, em 1983.  Aqui, o animal é simbólico: “Nesse circo de arame farpado / Palhaço de poucas ilusões / Cantando na festa dos leões”. Dez anos depois, com o músico Marcos Suzano, Olho de Peixe já tem um olhar ambiental: “O mar do céu de chumbo / a gaivota caça o peixe radioativo.” Leão do Norte é um título zoo.
Recifense radicado no Rio de Janeiro, foi registrado o espírito carioca por meio do jogo do bicho e de um provérbio adaptado:  “Deu raposa na cabeça / Deu bicho no pé do samba (…) Quando o mar não tá pra peixe / Jacaré vai de canoa.”  Na balada do cachorro louco tem um recado: “Eu Não alimento nada duvidoso / eu não dou de comer a cachorro raivoso”. Com Aboio Avoado, de Zé Rocha, Lenine lembra o canto dolente e monótono dos vaqueiros que guiam as boiadas ou chamam as reses. No Mote do Navio, de Pedro Osmar, ele retorna à praia: “O mar não tá pra peixe / Lá vem a barca.”
No álbum solo O Dia em que faremos contato (1977) ele se confirma um camaleão de ritmos musicais, com diversidade animal: “É o camelão e as cores do arco-íris” de uma Etnia Caduca. Como reforço, “Naveguei todas as cores / Pra virar camaleão.”
Próximo à virada do milênio, o cd Na Pressão explora referências indígenas em Tubi Tupy: “Eu sou feito do resto de estrelas / Como o corvo, o carvalho e o carvão (…) Sou o índio da estrela veloz e brilhante / Que é forte como o jabuti.” Com múltiplos sentidos, A Rede sugere que grandes compositores e cantores passam pela zoomúsica: “E eu caio na rede, não tem quem não caia” (…) Às vezes eu penso que sai dos teus olhos o feixe / De raio que controla a onda cerebral do peixe.”
O Feixe de Chico César, em Beleza Mano, é diferente: “Há dias que acordo tão pacífico / mas há manhãs em que me atlântico / e a mim mesmo com o dedo indico / peixe-boi / feixe-luz / quem foi que fui.” Nos quatro álbuns de Chico César dos anos 1990, Aos Vivos resgata a voz da seca em Paraíba, sucesso de Luís Gonzaga: “Quando o Ribaçã de sêde / Bateu asa e voou”. Pela tv, chegam vozes de protestos mundiais com cheiro de carne humana assada e uma guerra quase santa: “O carneiro sacrificado morre / O amor morre / Só a arte não.”
Tem “cachorra da moléstia” em Cuscuz Clã e duas viagens zoos:  “Eu disse que vim do Senegal / montado num cavalo-de-pau.” Um filho da terra volta para São Luís de Maranhão, mesmo que seja montado na onça, para dançar no boi-bumbá.
A vida social exige perfis e espinhas dorsais: “É preciso ser cão”, porque “Não vai cair maná do céu nem pão nem peixe nem pastel”. Por isso mesmo, uma Reprocissão indicavoar só alado ou encantado / pela cobra / que rasteja pelo chão.” Em Mama Múndi, a caça gera comoção: “Choro a caça que espreita / Bem perto à mira do algoz.” A vida em Aquidauana causa admiração e questionamentos: “Peixe que já vem no jeito / Nem precisa temperar.”

Chico-César

Zoos no novo milênio

Chico César registrou em cd trilhas sonoras para dois espetáculos teatrais: o infantil Amídalas (2000) e o musical infantojuvenil Marias do Brasil (2003). Lenine criou trilhas para dois trabalhos do Grupo Corpo: Breu (2007) e Triz (2013).
O projeto Lenine.doc reuniu trilhas diversas. A Mula sem Cabeça está em Lendas Brasileiras: “Ouviu atrás do morro / latidos de cachorro / e o grito de um jaguar na escuridão / canção mal assombrada / corujas com seus olhos de luar.” Falta reunir músicas de Lenine para blocos carnavalescos do Rio (Suvaco do Cristo) e de Pernambuco (falando para o mundo):“E um peixe amarelo / Eu vi navegar. / Não era peixe, não era. / Era Iemanjá, a rainha. / Dançando a ciranda”.
Nos três álbuns pós-2000, Lenine e parceiros diversificam a zoomúsica: “a vespa vesga da mesquinharia”,uiva a raposa, canta a cigarra, rebate o grilo”, “Se é do mato, amanse / Corra atrás da lebre”, “Os cães sem dono, os boiadeiros”, “Magra / Olhos de corça / Leve”, “Achei na praia um marisco com a letra do nome dela.” No contexto ambiental, “A mancha que vazou do casco do navio / Colando as asas da ave praieira. No social, “E a cidade crescia como um animal”.
Respeitem meus cabelos, branco, de Chico César, nem tem zoomúsica. Em compensação, De uns tempos pra cá (cd e dvd) retrata um animal de estimação que praticamente saiu da categoria doméstico: “Por que você não vem morar comigo / Alimentar meu cão, meu ego.” Mais um clássico zoomusical é cantado: “Por farta d’água perdi meu gado / Morreu de sede meu alazão / Até mesmo a asa branca.” De quebra, “se tem pano pra manga / orangotanga vá ou eu vou.”
Com Francisco, Forró y Frevo (2008) Chico César renova ou inova a tradição zoomusical:  “Passarinho preso vive de olho comprido / canta tão doido pois não pode avuar não”. Se Zabé toca, “as abelhas dão cria de um mel / que antes não havia.”  E outros peixes são cantados de forma bem-humorada: “O abaiacu foi encontrado / morto com o namorado / disseram que foi vingança / ou que o peixe se afogou.”
O Chão de Lenine, em 2011, captou cantos originais de pássaro e cigarra. Citação animal só tem na música Seres Estranhos: “Um simples solta os cachorros.” Carbono (2015) é o trabalho mais “pernambucano” da discografia, com toques de frevo, ciranda e maracatu. “A ciência já me fez cupim de ferro / Em bando, pombas brancas já revoam no ar.” Para ficar ainda mais regional, os 12** municípios com denominação animal, entre os 184 do Estado, podem inspirar outras zoomúsicas.
Depois de 7 anos sem gravar, Chico César retorna em Estado de Poesia (2015), lança Reis do Agronegócio e Museu do assum preto (associação a outro clássico zoomusical do Gonzagão). Radicado em São Paulo, o compositor paraibano produziu uma crônica musical bem-humorada e atual. No Sumaré, dois mendigos foram expulsos da praça. “E hoje só resta a praça vazia / Porque na noite fria o cachorro do rico faz o seu pipi”
*Paraíba, 223 municípios, 22 com nome de animais: Arara. Araruna. Emas. Gado Bravo. Guarabira. Gurinhém. Jacaraú. Juripiranga. Mataraca. Mogeiro. Montadas. Parari. Patos. Poço Dantas. Picuí. Riacho dos Cavalos. São João do Rio do Peixe. São João do Tigre. Santana dos Garrotes. São José de Piranhas. Uiraúna. Zabelê.
**Pernambuco (184 municípios e 12 com denominação animal: Bezerros. Buíque. Cabrobó. Cupira. Lagoa dos Gatos. Mirandiba. Pombos. Sanharó.  Sirinhaém. Surubim. Tracunhaém. Xexéu
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Publicado:
http://www.substantivoplural.com.br/lenine-e-chico-cesar-cairam-na-rede-e-no-agronegocio/

 

 

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